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Memória

 

Jerry LewisJerry Lewys: comédia nas telas
e seriedade com a vida

 

Na mais recente cerimônia de entrega do Oscar, realizada em 22 de fevereiro, centenas de milhões de pessoas pelo mundo emocionaram-se com a aparição do rei do pastelão Jerry Lewis. Claudicante, com a voz um tanto frágil e visivelmente sensibilizado, ele recebeu das mãos do discípulo Eddie Murphy o Prêmio Humanitário Jean Hersholt, um tributo de Hollywood não ao conjunto de sua obra, como se poderia supor, mas à sua campanha de décadas em favor dos portadores de distrofia muscular, uma moléstia hereditária que atinge as células responsáveis pelos movimentos. Esse reconhecimento sintetizou a relação do artista com a comunidade cinematográfica de seu país, onde nunca teve, como criador, a admiração entusiástica que conquistou mundo afora. Embora importante, o prêmio somou-se a muitos outros que o cidadão Lewis recebeu por sua cruzada – chegou a disputar o Nobel da Paz em 1977 –, não sendo suficiente para apagar o fato de que nunca fora indicado antes pela Academia. O comediante Lewis, ironicamente, lutou como um leão para que seus pares o levassem a sério – assim como lutou em diversos momentos pela própria vida.

 

O êxito comercial nunca foi um problema para Lewis, que mesmo nas primeiras produções, de baixo orçamento, era um fenômeno de bilheteria. Entre os anos de 1950 e 1956 os filmes que ele e Martin estrelaram estavam sempre no topo da lista de arrecadação. Influenciado por Frank Tashlin, diretor de seus melhores filmes, Lewis partiu para a carreira solo e manteve-se na liderança até 1959, retomando-a ainda duas vezes, em 1961 e 1964. Naquele ano, conquistou um de seus maiores orgulhos: foi condecorado com a Legião de Honra pelo governo da França.

 

O Professor Aloprado foi saudado como sua obra-prima. Nele, Lewis inverte a história de O Médico e o Monstro, ao opor o cientista feioso, desajeitado, mas de bom coração, ao galã conquistador de caráter duvidoso. Os mais maldosos viram uma referência ao ex-parceiro Dean Martin, mas o fato é que, apesar de afastados, os dois astros sempre mantiveram respeito e carinho um pelo outro. Depois de longo distanciamento, eles foram reunidos em rede nacional em um lacrimoso encontro-surpresa armado pelo amigo comum Frank Sinatra, em 1976, durante uma das muitas maratonas Teleton organizadas por Lewis na TV para arrecadar fundos para o combate à atrofia muscular.

 

Isso remete a um capítulo de sua trajetória que começa na noite de 20 de março de 1965, quando se apresentava no Sands de Las Vegas. Ao realizar um número, Lewis caiu de mau jeito e feriu seriamente a coluna vertebral. Seguiu-se um tratamento intensivo que, no entanto, não foi capaz de eliminar as fortes dores que passou a sofrer, tornando-o dependente do analgésico Percodin. Esta seria a primeira etapa de uma via crucis envolvendo sua saúde, que incluiria um violento ataque cardíaco em 1982, quando chegou a ter a morte clínica declarada, uma cirurgia de peito aberto em 1983, um câncer de próstata em 1992, diabetes, um diagnóstico de fibrose pulmonar em 2003, tratado com anabolizantes que o deixaram obeso, e um novo ataque cardíaco em 2006. Por incrível que pareça, o Jerry Lewis que se apresentou no Oscar é o da melhor forma dos últimos anos: ele se livrou da dependência de analgésicos com o implante de um chip na coluna, perdeu peso e recuperou movimentos. Um sobrevivente, apaixonado pela vida e a benemerência.


 

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