| Ano II, n. 21, Setembro de 2008 | ||
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Especial
Sr. Raul e a Flor de Santana
Uma história intercontinental
por Magno Soares
Portugal sob o comando de António de Oliveira Salazar, ou simplesmente Salazar, conseguiu atenuar os problemas provocados pela Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Mas a partir de 1945, a comunidade internacional passou a defender uma política de descolonização em todo o mundo. O Estado Português recusou-se conceder independência a suas colônias, praticando uma política de isolacionismo internacional sob o lema “Orgulhosamente sós”, provocando a Portugal sérias conseqüências. Em março de 1961, tem início a Guerra Colonial (designação oficial portuguesa), ou Guerra de Libertação (designação mais utilizada pelos colonizados). O conflito entre as Forças Armadas Portuguesas e as forças organizadas pelos movimentos de libertação das antigas províncias ultramarinas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique durou até o ano de 1974. A Guerra Colonial vitimou milhares entre os povos que acabariam por se tornar independentes e povo português, tendo forte impacto econômico em Portugal e abalando as estruturas políticas e sociais do país.
Se Portugal conseguiu atenuar o impacto da Segunda Guerra Mundial, não conseguiu o mesmo no conflito com suas colônias. Muitos de seus cidadãos não concordavam com a Guerra Colonial e se viam obrigados a servir nas Forças Armadas Portuguesas. Para evitar a participação em uma guerra com a qual não concordavam, muitos buscavam refúgio em nações amigas. Foi o que ocorreu com o patrício de Portugal, conhecido no bairro de Santana como Sr. Raul, proprietário da Flor de Santana Lanchonete, inicialmente batizada de Marilanches Santos, que está localizada à rua Voluntários da Pátria, 1.706 há mais de 30 anos.
O Sr. Raul, para estabelecer o que hoje é uma empresa tradicional e familiar no bairro de Santana, sendo gerida por ele, sua esposa Dª. Maria Luiza e os filhos Sandro e Márcio, precisou atravessar o Oceano Atlântico fazendo escala no continente africano, mais precisamente em Angola, então colônia de Portugal, até chegar no Brasil na década de 1960. Em nosso país, desembarcou no Rio de Janeiro indo mais tarde para o Estado de São Paulo, primeiro para a cidade de Santos e depois para Osasco. Em 1970, estabeleceu-se no bairro Santana onde está até os dias de hoje.
Como tantos outros imigrantes, divididos entre a pátria-mãe e a nação que os acolheram, o sr. Raul voltou a Portugal por saudade da “terrinha”, ocasição na qual se casou com Dª. Maria Luiza. Retornou ao Brasil sozinho, mas com planos de trazer sua esposa, o que logo aconteceu. Então, seus filhos Sandro e Márcio nasceram brasileiros, contribuindo com aquilo que talvez seja o grande responsável pelo desenvolvimento de São Paulo e sua transformação na cidade mais importante economicamente do Brasil, a miscigenação de povos, cultura e fé, convivendo e interagindo em harmonia.
Na Flor de Santana Lanchonete, onde é servido almoço todos os dias, podemos encontrar outras figuras célebres de Santana, como o Sr. Nascimento, barbeiro conhecido no bairro desde a década de 1950. Além do almoço, encontramos salgados, lanches e sucos para quando a fome apertar no meio da manhã ou durante a tarde. Também encontramos os tradicionais matinais: café, pingado, pão na chapa e muito mais.
Além dos excelentes quitutes, a Flor de Santana Lanchonete têm algumas peculiaridades, como a antiga caixa registradora, a segunda do estabelecimento, mantida no caixa. Muitos nem sequer lembram-se desse tipo de máquina, com teclas de números de três algarismos, necessárias para um tempo em que uma bala custava algumas centenas da unidade monetária da época. Outra curiosidade é o oratório que mantém as imagens da padroeira do Brasil, Nossa Senhora de Aparecida e de Nossa Senhora de Fátima, grande ícone da fé e devoção da população portuguesa, lado a lado.
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