Especial
O barbeiro de Sevilha, quero dizer de Santana
Há mais de meio século fazendoa cabeça dos santanenses
por Magno Soares

Familia CZNO Barbeiro de Sevilha é uma ópera de Gioacchino Rossini. A ópera é um gênero artístico que consiste em um drama encenado através da música. Assim como em uma ópera, o nosso personagem principal, o Sr. Nascimento, dono da barbearia da rua Alferes Magalhães há mais de 50 anos, passou por altos e baixos até atingir o clímax de sua história.

Florentino Gabriel Nascimento, ou simplesmente sr. Nascimento, como é mais conhecido, nasceu no Estado do Rio Grande Norte, “sou potiguar”. Desde cedo o sr. Nascimento apresentava traços de empreendedorismo: quando começou a “ficar rapaz” e a pensar “como posso ganhar meu dinheiro”, chegou a conclusão de que poderia ser através do ofício de barbeiro. Como, primeiramente deveria aprender para só então poder cobrar pelos seus serviços, começou a oferecer cortes de cabelo de graça aos funcionários da fazenda de seu pai, e com isso pôde aprender e dominar a técnica de cortar cabelo e ao mesmo tempo formou e assegurou sua clientela.

O sr. Nascimento, aos 14 anos, perdeu seus pais em datas muito próximas. De três irmãos, dois tinham migrado e se estabelecido em São Paulo. Aos 21 anos, em 1952, o sr. Nascimento, assim como tantos brasileiros, desembarcou na terra da garoa, indo se estabelecer diretamente na Zona Norte onde os irmãos migrantes já moravam.

Três anos mais tarde, em 1955, nosso personagem voltou ao Rio Grande do Norte. Embarcou em uma aeronave às 7 horas da manhã no Rio de Janeiro e às 16 horas do mesmo dia já estava em sua terra natal. Novamente seu espírito empreendedor se fez presente: junto a um primo, alugou uma padaria na cidade de Taipú, no sertão do Rio Grande do Norte. Foi “tocando” o negócio até que seu tio sofreu um acidente na ida a Romaria de Juazeiro. Desta vez, o espírito empreendedor deu lugar à solidariedade e o sr. Nascimento afastou-se de seu negócio indo para a cidade de Mossoró, onde seu tio estava hospitalizado. O prefeito de Mossoró providenciou a transferência do tio para a cidade de origem. Então, o sr. Nascimento retornou a Taipú, mas não a tempo de salvar o seu negócio, com sua ausência, a “padaria começou a desandar” e resolveu vender sua parte no negócio para o primo, mas este não tinha como lhe pagar. Recorreu ao seu único irmão que permanecia no Rio Grande do Norte, que lhe emprestou a quantia que valia sua parte na padaria e acertou com o primo, que este pagaria a seu irmão pelo empréstimo concedido.

O sr. Nascimento foi para a cidade de Recife em Pernambuco, onde trabalhou de barbeiro até que resolveu voltar para São Paulo. Mas o dinheiro emprestado pelo irmão já estava acabando e o trabalho não lhe rendia muito, logo ao resolver voltar para São Paulo, se viu obrigado a embarcar em um ônibus na “intermediária... era um banco no corredor”, explica.

Essa viagem, que durou 15 dias, foi recheada de imprevistos e até mesmo tragédia. O ônibus quebrou na cidade de Milagre na Bahia, e para o conserto precisava de uma peça que demorou quatro dias para ser enviada. O Prefeito da cidade, para que os passageiros não ficassem ao relento durante a espera pela peça, “arrumou uma casa velha” para que todos se acomodassem “melhor”. Depois o ônibus ainda pegou fogo e em uma estrada no Estado de Minas Gerais atolou em uma subida e escorregou de volta, sendo que a estrada era ao lado de um desfiladeiro, causando pânico entre os passageiros e o “povo pulou pelas janelas”. Um momento muito trágico dessa viagem e contado com muita emoção pelo sr. Nascimento, foi o episódio em que um bebê, de alguns meses, que viajava junto a seus pais nesta trágica viagem, faleceu dentro do ônibus e foi enterrada na beira da estrada – realmente, não consigo imaginar a intensidade dos sentimentos que um acontecimento deste pode gerar. Apesar de todos os acontecimentos ocorridos durante essa viagem, é curioso e bonito notar que o sr. Nascimento ao relembrar do episódio, deixa claro que o quê o marcou foi a solidariedade entre os passageiros, onde para ajudar uns aos outros, foram vendidos e rifados os poucos bens de valores de cada um, que por ventura, estavam portando.

Após toda a desventura da viagem, o sr. Nascimento desembarcou no Brás, pediu em um bar, que lhe fizessem o favor de guardar sua mala e foi ao encontro de um de seus irmãos e mais tarde, retornaram ao bar para buscar a mala.

Em 1956, de volta a São Paulo, o sr. Nascimento começa a trabalhar como funcionário na barbearia da rua Alferes Magalhães. Em 1961, nosso barbeiro de Santana compra a barbearia com a ajuda do sr. Justo, relembrado pelo sr. Nascimento com muita emoção. O sr. Juto lhe emprestou o dinheiro e disse “pague como puder”.

Em 1964, casa-se com a amazonense Arani Braga. Tem três “filhos maravilhosos”, conforme suas palavras, Cristina que lhe deu dois netos, Reinaldo lhe deu um e Rogéria lhe deu três.

Logo, desde 1956, o sr. Nascimento toca a Barbearia Nascimento junto aos seus ajudantes, ou melhor, amigos: o sr. Anibal, que entre idas e vindas, está junto ao sr. Nascimento há mais de cinqüenta anos; e o João Santana que está na equipe há quatro anos. Nesse mais de meio século, a Barbearia Nascimento teve freqüentadores ilustres, como o Ayrton Senna, que antes da fama morava bem próximo. A clientela é fiel, e em alguns casos se estendeu entre as gerações dos clientes.

 
Barbearia Nascimento: uma grande família
Sr. Nascimento, João Santana e sr. Anibal
  A família do sr. Nascimento:
O genro, sua filha Cristina, seu filho Reinaldo e seus dois netos


 

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